PORQUE ALGUNS PCs FUNCIONAM TÃO MAL
(E SÃO TÃO BARATOS)?

A primeira atitude de alguém que decide comprar um micro é abrir o jornal e procurar as ofertas sempre disponíveis. Outra alternativa é pesquisar na Internet em sites de fornecedores conhecidos ou em lojas virtuais que vendem de tudo. Há ainda a prática de pedir conselhos a amigos ou parentes. Qualquer que seja o caminho escolhido, uma coisa é certa: a constatação de que existe uma grande discrepância de preços para equipamentos de configurações semelhantes. Os mais ingênuos optam pelo menor preço, o que na maioria das vezes pode significar o início de fortes dores de cabeça.
As perguntas aqui são: Qual a razão dessa enorme diferença? Porque alguns PCs são tão baratos? Porque alguns PCs apresentam tantos problemas? Existe alguma relação entre baixos preços e elevados índices de problemas? Vamos então tentar colocar alguma luz sobre a questão levantada. Vamos tentar relacionar as possíveis causas dos problemas mais comuns com questões envolvendo qualidade de materiais, investimento em projeto, qualificação de mão-de-obra, controle de qualidade, postura ética, entre outros itens. Todos eles refletem-se, finalmente, no preço final para o consumidor.
Baixa qualidade dos módulos utilizados na montagem
Como se sabe, um computador IBM PC compatível, conhecido popularmente pela sigla PC (personal computer), por se tratar de um sistema aberto, tem suas partes básicas produzidas por diferentes fabricantes, que seguem os padrões especificados pela indústria de computadores. Tal como no famoso brinquedo Lego, o computador é resultado da montagem de um conjunto de blocos. Blocos de determinado tipo se conectam a outros de encaixe similar, e assim vai-se construindo o objeto final desejado. A diferença é que, por serem padronizados, os “blocos” do PC são fabricados por diversas empresas, que competem no mercado. Assim, os processadores podem ser da Intel, da AMD ou da Via. Placas-mãe, da Intel, da Asus, da IBM, da PC-Chips, entre outros. Módulos de memória, da Kingston, da Samsung, da Itaucom. E assim sucessivamente. Algumas empresas mantêm laboratórios de pesquisa e desenvolvimento, enquanto outras simplesmente clonam projetos de terceiros. A qualidade das equipes e o volume de recursos destinados aos projetos variam de empresa para empresa.
Feita a introdução acima, pode-se afirmar que muitos PCs de baixo custo são produzidos utilizando peças e módulos de má qualidade ou dimensionados sem critérios. A Helpcenter recebe para manutenção inúmeros PCs que se enquadram nessa categoria. Quando se fala em má qualidade, deve-se entender não somente a qualidade intrínseca do item avaliado, empiricamente mensurável pelo conceito do fabricante no mercado (algumas empresas produzem coisas reconhecidamente boas enquanto outras só produzem “porcarias”, também reconhecidas do público), mas também o comprometimento da qualidade original pelo manuseio, transporte ou armazenagem inadequados. Placas eletrônicas são sensíveis a descargas eletrostáticas e não devem ser manuseadas sem o devido cuidado, HDs são sensíveis a impactos e devem ser manuseados e transportados com cuidados especiais, slots e conectores das placas-mãe são sujeitos a oxidação pelo excesso de umidade no ambiente, etc.
Muitos fabricantes de micros, visando obter preços cada vez menores, usam peças de baixa qualidade, peças recondicionadas, peças usadas ou pior, peças condenadas pelos fabricantes originais. Exemplo: placas-mãe que não passaram no controle de qualidade da fábrica são revendidas por uma pequena fração de seu preço a empresas que se disponham a consertá-las. Os defeitos podem ser sintomas de travamento eventual, portas seriais com baixa taxa de transferência, um slot PCI com defeito, etc. Ocorre que nem sempre esse re-trabalho da placa ocorre. Empresas inescrupulosas compram esses itens defeituosos e os revendem como se fossem novos, a preços bastante atrativos. Como os sintomas são intermitentes, ou às vezes o defeito localiza-se em componentes não utilizados numa determinada configuração, o comprador final só percebe a situação após meses enfrentando problemas. O fabricante do micro, que adquiriu os componentes por preços muito abaixo dos de mercado, sabe que está fraudando o seu cliente. Na maioria das vezes, tais peças são compradas de contrabandistas, o que reduz ainda mais o seu custo. Como a maioria das pessoas não entende o que está ocorrendo, é muito fácil para o fornecedor desonesto ir ganhando tempo até o produto sair do período de garantia (que geralmente é de curta duração). As artimanhas utilizadas consistem em colocar a culpa no Windows, na incidência de vírus, na rede elétrica, no estabilizador, na falta do estabilizador, etc.
De um modo geral pode-se dizer que quanto mais barato é o micro, maior a chance de que ocorram problemas causados pela baixa qualidade de seus componentes.
É preciso entender que travamentos causados pela situação exposta simplesmente não têm solução. Uma placa de baixo custo ficará repleta de pontos de mau contato depois de alguns meses de uso, além da possibilidade de conter erros de projeto. Não há como tornar essas placas confiáveis.
Incompatibilidades
Em teoria, uma placa-mãe para PC funciona com qualquer placa de vídeo, processador ou módulo de memória que siga o mesmo padrão tecnológico especificado para ela. Assim, um módulo de memória DDR333 deve funcionar em qualquer placa-mãe que tenha um soquete próprio para este tipo de memória. Haveria, portanto, uma independência de fabricantes. Uma vez escolhida a placa-mãe, o projetista teria liberdade para escolher as marcas ou modelos de gabinete/fonte, memória, HD, unidade de CD, etc. Na prática, porém, existem as incompatibilidades. Os fabricantes de cada um desses componentes não têm como testar a interoperabilidade de seus produtos com todos os demais produtos com os quais interfaceiam. Isso porque, em alguns casos, existem milhares de opções. A obrigação de testar previamente a compatibilidade das peças passa a ser então do integrador de hardware. Resumindo, não basta escolher as peças e sair montando as máquinas. É necessária a montagem de um protótipo e a execução de testes de compatibilidade, antes de iniciar a produção em série.
Os fabricantes sérios fazem não só testes de compatibilidade de hardware, mas também ensaios com os softwares indicados para aquele tipo de equipamento (exemplo: se o micro é um servidor, os testes envolvem sistemas operacionais de rede, softwares de banco de dados, softwares de backup, softwares de gerenciamento, etc. Se é uma estação gráfica, os testes necessariamente envolverão softwares tipo AutoCad, Studio 3D, Photoshop, Illustrator). Fazem-se também testes de aderência às exigências formuladas por organismos nacionais e internacionais como EPA (Agência de Proteção ao Meio Ambiente – questões ambientais/economia de energia), UL (Underwriters Laboratories - segurança elétrica), ABNT (normas diversas), etc. A atitude de ignorar tais recomendações e normas, evitando os custos das respectivas certificações, além de se eximir de todas as baterias de testes de compatibilidade necessárias contribuem para um produto final pior tanto no aspecto funcional quanto da segurança de quem vai utilizá-lo. O impacto no seu custo final é inquestionável.
O sintoma mais comum dessas incompatibilidades são reinicializações e travamentos aleatórios, erros fatais no Windows, erros diversos nos programas (“operação ilegal”), etc. Sua solução não é tão simples, requerendo análise minuciosa dos componentes utilizados, bem como testes com componentes alternativos.
Montagem física sem critérios técnicos
Partindo do fato de que montar um PC é uma tarefa relativamente fácil, e que atualmente proliferam cursos de “montagem e manutenção de micros”, de carga horária baixíssima e abertos a pessoas inexperientes em informática, onde não se discute tecnologia, mas simplesmente a mecânica do processo, entende-se porque existem tantos montadores com pouca capacidade técnica, e que acabam cometendo erros primários na montagem. Parafusos mal colocados que deixam as placas “frouxas” (causa de maus-contatos), cabos mal organizados (que prejudicam a ventilação interna), fonte de alimentação mal dimensionada (problemas de alimentação), coolers pequenos demais e sem pasta térmica ou com excesso de pasta térmica (sobre-aquecimento, travamentos e queima do processador e da placa-mãe), etc, são problemas comuns que comprometem a estabilidade e a vida útil do equipamento.
Normalmente, micros com esse tipo de problema são montados por empresas amadoras, que contratam “técnicos” formados em cursinhos caça-níqueis, pelos quais paga-se um salário irrisório. Está aí mais um componente de baixo custo que contribui para os preços extremamente baixos praticados por essas empresas.
A boa notícia é que um bom técnico tem condições de revisar a montagem e corrigir todos esses problemas, se procurado a tempo.
Descargas eletrostáticas
O corpo humano acumula eletricidade estática (ESD) pelo simples ato de se movimentar. Ao caminhar, abrir uma porta, retirar um casaco de lã ou levantar de uma cadeira, ocorre uma troca de elétrons entre o corpo da pessoa e o ar. Isso gera um potencial elétrico que pode chegar a milhares de volts. Também se adquire ESD ao se tocar outros objetos carregados. É por isso que muitas vezes sentimos choques ao tocar em maçanetas ou outros objetos metálicos. Ao tocar em um componente eletrônico, as cargas estáticas são transferidas rapidamente para este componente, numa espécie de "choque" de baixíssima corrente, mas suficiente para danificar parcial ou totalmente os circuitos internos existentes dentro dos chips. Nessas condições, um chip pode danificar-se imediatamente (falha catastrófica), ou ficar parcialmente danificado (falha latente), passando a exibir erros intermitentes, ficar mais sensível a variações de temperatura e podendo até mesmo queimar sozinho depois de algum tempo. Uma vez danificado o componente, não há como reverter o problema, sendo necessária a sua substituição, quando possível. Portanto, a solução é preventiva.
As formas de evitar os danos causados pela ESD são: 1) Segurar as placas, processadores, módulos de memória e outros componentes pelas bordas laterais, sem tocar nos contatos metálicos. 2) Manter os componentes citados dentro de suas embalagens anti-estáticas até o momento de utilizá-los. Se for necessário retirar um componente do equipamento, deve-se guardá-lo provisoriamente numa sacola anti-estática. 3) Utilizar instalações elétricas adequadamente aterradas. Nesse caso, pode-se efetuar a descarga periódica da ESD tocando as duas mãos no gabinete ou na fonte do microcomputador. 4) No caso de fabricantes e integradores de PCs, é fundamental a utilização de uma pulseira anti-estática, que mantém o técnico aterrado permanentemente e evita o acúmulo de ESD. 5) Ao comprar placas e módulos eletrônicos, deve-se exijir do fornecedor que estejam acondicionados em embalagens anti-estáticas e que estas estejam lacradas (admite-se apenas um pequeno corte na embalagem, necessário para a afixação da etiqueta de garantia).
Aqui, mais uma vez assiste-se ao filme da baixa qualificação do corpo técnico, do baixo perfil técnico da empresa como um todo (falta de critérios e normas internas, incluindo a questão da ESD) e de sua participação no baixíssimo custo dos PC assim produzidos.
Aquecimento
O sobre-aquecimento dos componentes tem efeito nefasto sobre o funcionamento e a integridade física do microcomputador. Além do provocar travamentos espontâneos, pode levar à queima dos componentes mais sensíveis (processador, placa-mãe, placas de vídeo de alto desempenho e memórias).
Alguns componentes (geralmente os processadores e alguns chipsets) exigem ventilação forçada para dissipar o calor que eles próprios geram. Utiliza-se aí uma base metálica dissipadora que absorve o calor do componente, e sobre ela, instala-se um ventilador cujo fluxo de ar “espalha” o calor acumulado na base para o ar, resfriando-a. Assim, a base retira calor do componente, sendo então resfriada pelo fluxo de ar gerado pelo ventilador. A base dissipadora juntamente com o ventilador é normalmente referida como “cooler”. Sem o cooler, o processador simplesmente queima. Se o cooler não é dimensionado adequadamente, o processador poderá não se queimar, mas funcionará mal (com erros de processamento e mais lentamente). Um outro ponto importante aqui é a necessidade de se aplicar uma pasta térmica no contato da base dissipadora com o processador. Essa pasta garante um contato térmico de melhor qualidade entre os dois elementos, facilitando a transferência de calor. É importante observar que quanto maior a freqüência (clock, medido em gigahertz) do processador, maior quantidade de calor ele gera, exigindo coolers adequados em dimensão, velocidade de rotação e qualidade.
Encontramos aqui mais um item capaz de baratear o PC. É muito comum encontrar micros montados com coolers de baixíssimo custo, que com pouco tempo de uso perdem rotação (folga mecânica no eixo, perda de potência do motor, etc), ou até mesmo com coolers próprios para processadores de menor clock.
Outro ponto de economia que tem a ver com sobre-aquecimento refere-se ao gabinete do micro. Além do processador, já citado, outros agentes de aquecimento interno da máquina são as placas de vídeo 3D de alto desempenho, gravadores de CDs/DVDs e discos rígidos de 7.200, 10.000 ou 15.000 RPMs. Gabinetes muito compactos tendem a ficar mais quentes por possuir um menor volume de ar interno, agente utilizado na dissipação do calor gerado. Com os processadores modernos (Celeron, Pentium 4, Athlon e Sempron), o ideal é usar gabinetes com no mínimo 50 cm de altura, chamados de midi-torre. Esses gabinetes devem ter, além do exaustor da fonte, que puxa o ar quente para a parte traseira do computador, um outro ventilador dianteiro que puxa o ar frio para o seu interior. Opcionalmente pode-se usar ainda um exaustor, também instalado na parte traseira do gabinete. Os melhores gabinetes já vêm com todos esses ventiladores instalados.
Deve-se observar também que montagens mal feitas ignoram a correta organização dos cabos no interior do gabinete. Eles devem ser roteados adequadamente e presos ao gabinete com presilhas de nylon de forma a não atrapalhar o fluxo de ar interno, o que poderia sobre-aquecer alguns componentes. Mesmo que os demais itens antes relacionados estivessem corretamente dimensionados, este simples detalhe de montagem poderia comprometer o funcionamento do conjunto.
Mau contato
A interligação entre os diversos módulos que integram um PC é feita através de encaixes (soquetes e slots) ou de conectores para cabos. Existem também as interligações via jumpers, caso de alguns reguladores de voltagem.
As conexões através de cabos podem ficar frouxas, resultando em pontos de mau contato que impedem o correto fluxo de sinais elétricos entre as partes. Isso ocorre quando se transporta o computador sem o devido cuidado quanto a impactos ou quando ele é aberto para fazer alguma inspeção ou alteração e algum cabo é deixado parcialmente solto, por acidente ou displicência.
Além de problemas com cabos, a ação de poeira, umidade e maresia vão se acumulando ao longo de um certo período de utilização e podem também afetar os contatos eletrônicos do equipamento, causando problemas de funcionamento.
Aqui cabe uma observação importante que remete à questão do custo do micro: placas e periféricos de má qualidade podem ter conectores sem proteção contra oxidação. Os melhores conectores são revestidos por uma fina camada de ouro que praticamente a impede. Conectores de baixa qualidade não possuem esta camada, pois isso aumenta seu custo, e o mau contato pode surgir depois de alguns meses de uso.
Como conseqüência da oxidação de contatos, o computador pode apresentar falhas intermitentes, sem um padrão de comportamento, ora funcionando bem, ora com travamentos ou outros sintomas. Um bom técnico pode verificar todas as conexões e realizar uma limpeza geral nos contatos eletrônicos, o que resolve provisoriamente o problema. Mas não existe solução definitiva que não a substituição da placa.
Procedência
De tudo que foi exposto, a conclusão é que o risco que se corre ao se adquirir micros olhando apenas o preço não compensa a economia. O preço real de um equipamento deve ser avaliado somando-se o seu preço de aquisição com os gastos efetuados ao longo de sua vida útil: gastos com manutenção de terceiros (mão-de-obra e peças substituídas) e prejuízos que as sucessivas paradas para conserto significam para o usuário (perda de tempo no leva e traz para as oficinas, perda de produtividade pela não disponibilidade do equipamento, perdas resultantes da impossibilidade de cumprir prazos em tarefas que dependem do micro, stress provocado pelo alto índice de travamentos e erros, etc). É o que os especialistas chamam de TCO (Total Cost Of Ownership – custo total de propriedade).
Portanto, antes de comprar deve-se, em primeiro lugar, equalizar os preços levando em conta aspectos diversos como configuração, período de garantia, tipo de garantia (no local ou balcão), itens inclusos tais como softwares, manuais, suporte técnico disponível via web (atualizações e drivers são importantes), entre outros. Depois, se o fabricante não é conhecido, deve-se avaliar sua reputação, buscando entrar em contato com clientes indicados por ele e também com o PROCON mais próximo (este poderá informar se existem reclamações, qual sua freqüência e volume e qual a postura da empresa diante delas). Deve-se tomar muito cuidado com a procedência, pois isso precede a marca. Um micro montado com uma placa-mãe da marca Asus (marca que tem boa reputação no mercado) pode não ser uma boa opção se houver suspeita de que o mesmo é montado com módulos contrabandeados, pois é grande a chance de tratar de produto defeituoso ou falsificado (vide item 1 acima).
Como saber se um micro é montado com itens contrabandeados? Uma regra prática para identificar um possível contrabando seria: 1) solicitar junto com o preço do micro, o preço de uma impressora de uso menos comum (uma Epson FX-2190, por exemplo). 2) Comparar o preço do micro e da impressora com o dos concorrentes. 3) Se as diferenças de preço, em termos percentuais, forem muito favoráveis ao micro, deve-se ficar alerta. O raciocínio aqui é que dificilmente uma impressora desse tipo será comercializada ilegalmente, pois é grande (o contrabando não gosta de coisas volumosas), e a demanda é maior para empresas, que normalmente exigem garantia da rede autorizada do fabricante, que não atende produtos que não estejam registrados para comercialização no país. Se a empresa consegue ser tão competitiva quando se trata de microcomputadores, por que razão não consegue sê-lo quando o produto é uma impressora?
Como diz um conhecido ditado popular, “nem tudo que reluz é ouro”. Na hora de adquirir um PC novo, pense no TCO e boa compra!